MediaOn: visões antagônicas

por Alexandre Fugita

[MediaOn] Termina hoje em São Paulo o Media On, 1o. Seminário de Jornalismo Online. E como não poderia deixar de ser, há transmissão em tempo real dos painéis pela internet, coisas que só a mídia digital permite. Acompanhei algumas discussões de ontem e ao mesmo tempo que fiquei entusiasmado com alguns dos participantes, assustei-me com a visão retrógrada de outros. O evento discute várias mudanças que o jornalismo está enfrentando com as mídias digitais. Jornais vendem menos, a TV perde audiência. Pessoas procuram a web para se informar, o YouTube para assitir vídeos. Ou seja, o mundo mudou.

UOL

“O jornalismo participativo é uma atividade parecida com um show de calouros? Os jornalistas farão o papel de jurados?” – Márion Strecker, diretora de Conteúdo do UOL. Segundo ela, “é preocupante que um veículo que se diz jornalístico ‘terceirize’ a responsabilidade sobre o conteúdo para o leitor”. Sim, isso mesmo, a diretora de conteúdo do UOL deve viver no século XIX. O conteúdo colaborativo é quase uma doença que precisa ser tratada com muito cuidado. Blogs precisam de responsabilidade, “chamem os jornalistas” (*), bradou Bob Fernandes (Terra Magazine), ali ao lado. Márion citou veladamente o caso do Engadget que ao divulgar uma notícia supostamente verdadeira que se mostrou falsa minutos depois, causou uma queda de 4 bilhões de dólares no valor das ações da Apple. E a propaganda disfarçada de notícia do asteróide Pallas na home do UOL, Estadão e Terra? Enganou todo mundo e causou tumulto na web.

Fiquei embasbacado com o discurso da diretora de conteúdo do UOL. Como? Sim, UOL, um dos maiores portais brasileiros de informação. Coisas como o Digg seriam a personificação do demônio para ela. Blogs? Só de jornalistas responsáveis. Vendo que seu discurso não agradava, logo tentou consertar dizendo que o UOL possui espaço para blogs pessoais livres. Sim, livres mas que aceitam intervenção dos coroné da república.

(*) nada contra jornalistas. Uma das minhas melhores amigas é jornalista e leitora do Techbits.

Rosental

O oposto foi o Rosental, professor jornalismo da Universidade do Texas. Esse senhor é revolucionário. Afirmou que o jornalismo deixa de ser monopólio de jornalistas, que o hype atual são as conversações entre blogs e também a social media. Disse que em conversas com outros professores de jornalismo muitos afirmam ter medo de ensinar jornalismo digital pois os alunos invariavelmente sabem mais do que eles. O Rosental foi categórico: pois eu adoro ensinar jornalismo digital, deixo meus alunos terem idéias, sirvo mais como um guia e não aquele que detém a última palavra. Falou de uma frase do Chris Anderson, autor do ótimo A Cauda Longa: “eu faço o que os estagiários me mandam”.

Citou o crowdsourcing como parte fundamental da nova era e a mídia epicêntrica na qual o usuário é que decide quando vai consumir o conteúdo. Nada de grade fixa da TV, isso é coisa de dinossauros. Para o Rosental a revolução que estamos vivendo agora é do mesmo grau que séculos atrás Gutenberg fez ao inventar os tipo móveis e baratear os custos de distribuição de conteúdo. A internet derruba novamente estes custos, agora para quase zero. Ao ser questionado por uma estudante de jornalismo sobre o que fazer para ficar por dentro do mercado enquanto estudante, Rosental afirmou: “crie um blog”. Fantástico.

Comentários do Facebook
20 comentários
  1. A questão é o que dá mais lucro!

    A queda de assinatura de jornais e revistas impressos, faz com que estas pessoas tenham a visão de que o jornalismo clássico seja essencial para a disseminação da informação. Com disseminação da informação gratuita por meio de blogs e sites via internet, deixa de ter sentido você comprar um jornal com notícias de ontem.

    Não tem nada que mais assuste uma redação do que trabalhar com notícias “velhas”, e competir com blogs do porte e com a abrangência do Engadget ou Gizmodo chega a ser covardia… Adivinha quem ganha com isso!? :)

    Seleção natural, adapte-se ou seja extinto!

  2. 2. Arthur Corradi disse em 14 jun 2007 - 09:44

    eu compararia essa revolução da informação com algo que (aparentemente) já está superado no campo da educação: à mudança da idéia do professor como o senhor detentor de todo o saber, e o aluno (=”sem luz”) apenas como um agente passivo do processo de aprendizado.

    da mesma forma, a idéia da grande mídia como a detentora de toda a informação está ficando para trás. assim como alunos podem (e, de fato, têm muito a) ensinar, pessoas comuns (“não-jornalistas”) também tem opiniões e fatos a dizer que a grande mídia, por inúmeras razões (da influência política e econômica dos grandes grupos detentores desses veículos a – usando uma expressão de “A Cauda Longa”, “limitação de prateleira”, o que limita e, portanto, acaba excluindo muita coisa do noticiário mainstream), não mostra. e a medida que as ferramentas de comunicação ficam mais democráticas, essa mudança de paradigma se torna mais e mais inevitável, para a infelicidade de muita gente. ;-)

  3. “Ao ser questionado por uma estudante de jornalismo sobre o que fazer para ficar por dentro do mercado enquanto estudante, Rosental afirmou: “crie um blog”. Fantástico.”

    nossa… o kra deitou na resposta hein ! queria ter visto a palestra desse kra =/

  4. […] visões antagônicas 14 – June – 2007 MediaOn: visões antagônicas – Techbits Termina hoje em São Paulo o Media On, 1o. Seminário de Jornalismo Online. E como não podia […]

  5. […] Via Techbits. […]

  6. Sensacional a resposta: ” crie um blog”. Somos filhos da revolução. :D

    Excelente artigo. Parabéns!

  7. O discurso da diretora de conteúdo do UOL nada mais do que condiz com o atual nível de confiabilidade que alguns dos canais de notícias do portal apresentam hoje.

    Abraço, Alexandre!

  8. kadu,

    A concorrência blogs vs. mídia tradicional está para estourar. O claro, quem não tiver estrutura para agüentar o tranco vai ficar para trás.

    Arthur,

    Exato. É o usuário gerando conteúdo especializado, tão bom ou melhor que um jornalista que escreve sobre aquilo. É o professor ensinando e aprendendo com seus alunos. É a troca de idéias, informações.

    Diego,

    Essa foi a conclusão da resposta. Mas fechou com chave de ouro!

    Mário,

    Pois é, esse “crie um blog” ficou reverberando na minha cabeça! Obrigado pelo elogio!

    Zé Carlos,

    O pior que o UOL é um dos sites de conteúdo mais acessados do Brasil.

    Abraços a todos!

  9. sorry, mas, por favor, poderia me esclarecer abaixo:
    que ódio, cai no conto do vigário ou vc tem dois blogs: http://digitador.blogsome.com/2007/06/14/mediaon-visoes-antagonicas/
    começo a ler seu post só agora depois que comentei no blog acima e pela primeira vez sinto ódio do control c porque me senti enganada mesmo…sorry se criei mais confissão, mas são posts quase identicios, senão for identicos…
    depois releio aqui pra comentar sobre media on

  10. Olá Ceila!

    Bom, o post indicado é uma cópia do meu texto. Simples assim. Na verdade os únicos caracteres a mais colocados foram umas aspas, acho. Aqui no Techbits você só encontra conteúdo original. Sempre.

    Abraços!

  11. O Homem-spam, ao vivo no MediaOn!…

    A Ceila Santos vai me bater se eu meter o pau no MediaOn, seminário internacional de jornalismo online promovido essa semana pelo Portal Terra, em conjunto com o Itaú Cultural. Independente das próximas linhas, ela sabe que eu adorei o evento. É se…

  12. E aí Alexandre, beleza?

    Conheci seu blog agora e vou adicioná-lo à minha lista.

    Se quiser uma foto bem bacana da Márion Strecker para ilustrar seu artigo, acessa lá meu blog, hehehe..

    Abraços cara!

  13. […] mas depois conheci a Creative Commons e acabei adotando ela (em parte). Nesta semana eu vi no post MediaOn: visões antagônicas, do Techbits, que um usuário copiou diretamente o conteúdo do Alexandre Fugita e nem sequer […]

  14. Leonardo,

    Legal, via a foto da Márion no seu blog, hehe!

    Até!

  15. 15. rafa disse em 18 jun 2007 - 17:09

    já tem até mashup da diretora com nosso ministro da cultura: http://youtube.com/watch?v=PiOdkVKYFGU

  16. 16. Alexandre Fujita disse em 20 jun 2007 - 19:15

    Meu nome é Alexandre Fujita. Coincidência não?
    Gostaria de fazer uma crítica, pois hoje fui abordado por alguns colegas no trabalho atribuindo a autoria destes comentários a mim.

    E…olhando na sessão SOBRE obtive:

    Colaboradores
    Alexandre Fugita não é jornalista e nem trabalha na área de tecnologia. É apenas um aficcionado pelos assuntos discutidos neste blog

    Isso é muito pouco para identificar QUAL Alexandre Fuj(g)ita está
    opinando, e vc, como eu, já deve ter se deparado com a troca do g pelo j em diversas oportunidades.

    Como teu blog tem alguma audiência, e consegui perceber isto após ter sido abordado (eu particularmente não o conhecia) entendo que vc deveria dar mais elementos para diferenciar os Alexandres Fujitas (eu conheço mais 2 homônimos pelo menos).

    Retornarei para ver a tua resposta.

    Agradecido

    Alexandre Fujita

  17. João da Silva nipônico?! :)

  18. Cara quase-xará, Alexandre Fujita,

    Bom, posso lhe garantir que eu não sou você! E pode mostrar isso para seus colegas de trabalho.

    Pelo que entendi vc trabalha no UOL (estou certo?) e como estou fazendo uma crítica à diretora de conteúdo do UOL algumas pessoas vieram lhe perguntar se esse blog era seu.

    Bom, nosso nome não é idêntico. Sou Fugita com G e vc Fujita com J. Acho que isso já é mais do que suficiente para nos diferenciar.

    Fica aqui um trecho de um texto do João Cabral de Melo Neto, para reflexão:

    Morte e Vida Severina

    O meu nome é Severino,
    como não tenho outro de pia.
    Como há muitos Severinos,
    que é santo de romaria,
    deram então de me chamar
    Severino de Maria
    como há muitos Severinos
    com mães chamadas Maria,
    fiquei sendo o da Maria
    do finado Zacarias.

    Mais isso ainda diz pouco:
    há muitos na freguesia,
    por causa de um coronel
    que se chamou Zacarias
    e que foi o mais antigo
    senhor desta sesmaria.

    Como então dizer quem falo
    ora a Vossas Senhorias?
    Vejamos: é o Severino
    da Maria do Zacarias,
    lá da serra da Costela,
    limites da Paraíba.

    Mas isso ainda diz pouco:
    se ao menos mais cinco havia
    com nome de Severino
    filhos de tantas Marias
    mulheres de outros tantos,
    já finados, Zacarias,
    vivendo na mesma serra
    magra e ossuda em que eu vivia.

    (…)

    Para ler o texto completo:
    http://www.culturabrasil.org/joaocabraldemelonetoo.htm

    Abraços!

  19. Rafa,

    Hehehe, esse vídeo é interessante. Mas, realmente, o conteúdo colaborativo é um perigo!

    kadu,

    Parece que sim.

    Abraços a vcs!

  20. […] do Itaú Cultural já que rede wi-fi deve soar como palavrão por lá, assim como alguns acham as redes colaborativas uma aberração. O evento era patrocinado pelo Terra, grande portal da internet brasileira. Jornalismo on-line, só […]

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