O valor da informação

por Alexandre Fugita

Se hoje a informação é de graça...Faz uns três anos que parei de ler diariamente jornal, daqueles impressos. Isso não quer dizer de forma alguma que fiquei sem me informar. Naquela época comecei a notar que a maioria das notícias do jornal acabava lendo no dia anterior na interwebs e que não fazia mais sentido acompanhar o mundo com um dia de atraso. Hoje enxergo três tipos de informação que consumo: as em tempo real, as opiniões e as notícias. E cada uma tem o seu valor. Neste post vou tentar explicar como enxergo esse valor e o impacto que a internet tem em cada uma delas.

Notícias

Um jornal impresso é repleto de notícias. Tem outras coisas mas o seu principal material são as notícias. Do dia anterior… quando não tem dois dias de atraso como é o caso do volumoso jornal de domingo. O grande problema é que com a internet a notícia simplesmente virou commodity. E é isso que tem incomodado os grandes grupos de imprensa do mundo.

Quando abrimos o Google News, por exemplo, vemos lá que o Steve Jobs voltou a apresentar um keynote (imagem abaixo). Ok, notícia interessante, mas onde ler? O Google News dá algumas opções principais e coloca no final um link para mais 171 artigos semelhantes. Praticamente todos eles devem falar quase a mesma coisa: Steve Jobs apareceu, Apple lançou iPod nano que permite filmar e atualizou o sistema do iPhone para versão 3.1. Tanto faz se você ler no G1, no Estadão, no Terra, no… pois é… em qualquer lugar.

Google News e seus 1758695 links

Como disse a notícia por si só é commodity, tanto faz o lugar que você a está lendo. E isso se for na internet. Imagina esperar para ler só no dia seguinte que é o que um jornal faz. Realmente não dá certo e é esse um dos motivos de eu achar o jornal impresso algo ultrapassado.

Antes que alguém reclame nos comentários, não estou dizendo que a mídia tradicional morreu e sim que o formato jornal impresso não é o mais apropriado para esse tipo de informação.

Tempo real

Um dos grandes benefícios que o Twitter trouxe certamente é a distribuição de informação rapidamente e muitas vezes em tempo real. Um outro é a possibilidade de controlar a taxa de sinal e ruído. O fato do tempo real estar na essência do Twitter torna esse tipo de informação muito valiosa.

Em geral os acontecimentos em tempo real também são notícias. Tanto é que alguns canais como blogs se utilizam do recurso de live-blogging para narrar acontecimentos como as apresentações do Steve Jobs. Aqui no Brasil o Henrique Martin do Zumo estava em São Francisco fazendo a cobertura. E o tradicional Engadget é quase sempre meu ponto de apoio quando quero acompanhar grandes lançamentos e eventos em tempo real.

Muitos tuiteiros brasileiros quando vão a eventos como um recente, o Digital Age 2.0 ou ainda o Blogcamp RJ, inundam seus streamings públicos do Twitter com atualizações de quase cada palavra de um palestrante, além de outros detalhes.

O Read Write Web já fez vários artigos dizendo que o real time é o “the next big thing”. Até o Google começou a se preocupar com isso pois seu mecanismo de busca sempre foi ótimo para coisas que aconteceram mas muito ruim para coisas que estão acontecendo naquele momento. E melhoraram o algoritmo de busca para absorver melhor o tempo real.

O grande diferencial da notícia ser dada em tempo real é que não deu tempo ainda de ela virar commodity. Mas meia hora depois 3517 links no Google News irão aparecer e daí concorrer a um lugar ao Sol. Mas é sempre bom saber que no Twitter sempre vai ter alguém em todos os lugares, até mesmo quando um avião cai por acidente em um rio em Nova York.

Opinião

Certa vez conversando com o Eric Messa, professor da Faap e interneteiro, chegamos ao entendimento que para um blogueiro é melhor ser mais parecido com um colunista do que um repórter atrás de notícias. Isso por que como já foi discutido neste post a notícia é commodity, e o grande diferencial que alguém pode tratar uma notícia é se divulgá-la em tempo real ou antes de todo mundo. E blogs não tem estrutura para isso. Ou pelo menos a maioria não.

Então o que resta ao intrépido blogueiro? Opinião. Tá certo que o Andrew Keen já disse que qualquer opinião não quer dizer nada e só posso concordar com ele. Mas uma opinião bem fundamentada, daquelas de dissertação da aula de redação do colégio sempre são bem vindas. E é esse o nicho que recomendo aos blogueiros, a parte mais difícil, reservada aos colunistas, que é a opinião.

Claro, um blog não precisa ser só opinião. É interessante a forma como o Tecnoblog tratou a sua reestruturação de conteúdo, algo que já pensei em fazer no Techbits (ei, Mobilon, posso copiar a ideia?). Lá existe a home com colunistas e em outra área do blog as notícias sendo alimentadas. Faz todo o sentido para atingir uma grande público.

Acho que faltou citar aqui neste post coisas como revistas – boas para reportagens e análises aprofundadas – e também notícias locais, um nicho interessante a ser explorado, bem como a personalização das notícias. Mas o texto já está grande demais para discutir mais coisas.

E pra finalizar, o grande valor da opinião é que ela não vai virar commodity e também não é efêmera quanto a informação em tempo real. E em um mundo de Google News e Twitter essa é a forma que diferencia qualquer um da multidão.

Comentários do Facebook
12 comentários
  1. Também deixei de ler jornal e compro ou ganho uma revista lá de vez em quando.

    Só faltou você falar (porque não deveria ser o propósito do seu post) do que se perde com essa cultura do fim da mídia impressa.

    Talvez a noticia que é mostrada no portal do veículo de imprensa seja a mesma que seria vinculada no jornal impresso, mas essas empresas de mídia ainda não aprenderam a ganhar dinheiro com conteúdo online, por isso acabam cortando custos onde eles mais fazem falta: profissionais.

    O advento da informação gratuita na internet diminuiu a qualidade da forma como ela é mostrada, pois os veículos de imprensa não tem mais dinheiro suficiente para pagar os melhores profissionais.

    Acredito no valor das informações vinculadas em blogs, mas acho que as vezes elas carecem da experiência de um profissional especializado em passa-las ao leitor.

  2. Sabe pq temos milhares de jornais impressos? Pq o processo de produção de conteúdo/impressão/entrega dá muita vantagem para o player local.

    Concordo. No caso da web, o semelhante só servirá para completar mix de notícias. O plus a mais virá em conteúdo exclusivo que nunca é buscado ou aparece no Google.

    Isso porque um conteúdo realmente criativo e exclusivo surpreende inclusive o usuário. É um jogo de rato e gato, assim mesmo, invertido. O rato corre para os lugares mais interessantes e espera que o gato vá atrás.

  3. Acho que o grande problema da mídia tradicional em optar pela notícia ao invés da reportagem. Ou seja, em ter matérias óbvias com uma visão centrada sobre os fatos ao invés de matérias maiores com uma visão mais macro e que cabem melhor no papel. Mas aí entra também os problemas comerciais da mídia.

  4. É Fugita, você está certo, “a mídia tradicional não morreu”… Mas tá quase morta.. rsrs
    Bom saber que você voltou a blog Alexandre, seja vem vindo de volta :)
    abraço

  5. Eu não sei se commodity é a melhor palavra para definir as notícias, justamente porque, não importa o quão imparcial o veículo se venda, ele terá que adequar a notícia ao seu recorte editorial.

    Sendo assim, você pode assistir a notícia em um Jornal Nacional que tem um recorte mais familiar, e depois se espantar ao ver a mesma notícia sendo dada por um José Luiz Datena. Cada veículo irá exibir a notícia de uma ótica diferente, e isso já é um diferencial e tanto.

    Opiniões às vezes são iguais, mas dependem do ponto de vista de cada pessoa. Já no mundo das notícias, apenas os fatos podem ser considerados commodity, já que para a produção de uma notícia, alguém vai precisar digerir aqueles fatos por alguma ótica, adaptando ao recorte editorial de cada veículo.

    É como diz o ditado popular: “Em cada ponto aumenta um conto”.

    Ps: Glad you’re back, man! :D

  6. Opa Fugita!

    A menos que você esteja num leilão (ou vá fazer uma grande compra), saber algo primeiro não é necessariamente uma vantagem!

    Análise sobre os fatos, podem ser mais importantes que os próprios fatos.

    No finalzinho do barcamprj o Thiago Mobilon comentava (como vantagem) que o Tecnoblog ficou sabendo em primeira mão o preço dos novos Iphones… Qual a vantagem disto para o usuário final? Se soubesse somente hoje, agregaria algum ganho pra mim? Não!

    Agora uma análise do preço do Iphone e o que ele oferece agregaria valor pra mim! E aí, que quanto mais independente for o blogue, menos filtro de leitura eu precisarei usar, para retirar algo de útil!

    Enfim concordo com a sua separação de notícia, tempo real e opinião e avalio que opinião crítica é o mais raro hoje em dia (na velha mídia e nos blogues)!

    Parece ser mais fácil encontrar a opinião isenta nos blogues que vivem o “estado nascente” do que nos interessados em se profissionalizar para o mercado. Ainda que isto não seja um dogma! É só uma percepção pessoal

    Pessoalmente, acho o “tempo real” é um grande gerador de ruído (por isso prefiro os blogues ao twitter). A opinião decantada, pesquisada e crítica (sem o receio de chatear o patrocinador) é algo que faz a diferença num blogue.

    abs

  7. Sérgio Só uma correção, a informação que ficamos sabendo em primeira mão foi sobre o preço / data de lançamento do Snow Leopard no Brasil, e não iPhone. :-)

    Abs!

  8. Opa Thiago,

    Obrigado pela correção :-) Mas o raciocínio continua o mesmo!

    abs

  9. Teilor,

    Possivelmente todo o modelo esteja com um problema sério para se resolver. Mas informação de qualidade mesmo que nos sites dos jornais sempre é útil.

    Eu leio muitas coisas no The New York Times e The Guardian (UK), na maioria das vezes ligados à tecnologia. E eu nunca comprei tais jornais em papel, mesmo pq nenhum deles é brasileiro. Mas gosto muito das análises que fazem sobre tecnologia.

    Pelo que tenho lido recentemente o Google tem um projeto de micropagamentos para jornais que ainda não me aprofundei em entender, mas pode ser uma solução.

    Bender,

    Concordo com a vantagem do player local quando se fala de mídia impressa. E poderiam aproveitar essa vantagem para fazer uma cobertura mais localizada das notícias. Por exemplo, um jornal de bairro geralmente traz informações que vc não encontra em um jornal da cidade, por exemplo. Mas o jornal da cidade concorre com todos os players do país. Então talvez a informação localizada pode transformar a notícia em algo diferente para aquele lugar.

    Tiago (Cordeiro),

    Outro dia li que o xkcd, um webcomic geek, estava saindo das páginas web para ser impresso em um livro. E achei muito interessante. Uma matéria do NYT apontava para esse fato diferente de todo mundo falar que o papel está morrendo mas algo do meio digital achar seu caminho nele.

    A matéria quis passar a ideia de que o meio impresso passa então a ser um prêmio e não o lugar comum de diistribuir informação.

    E por isso concordo com o fato de vc dizer que a mídia impressa deveria se preocupar mais em reportagens pois daí seria conteúdo premium.

    Capim Dourado,

    Bom, de uma forma ou de outra a grande mídia não vai morrer pois sempre será necessário alguém que nos forneça notícias. O que enxergo é que o meio impresso está fadado à extinção.

    Mobilon,

    Concordo plenamente com você. Mas a notícia processada já não é mais simplesmente notícia e portanto deixa de ser commodity. Em geral na grande mídia só se passam os fatos e por isso disse que trata-se de commodity.

    Sergio,

    Eu também prefiro os fatos analisados em um segundo momento,mas quando é algo que acabou de acontecer às vezes essa análise não está disponível.

    Algo que já notei é que jornais e tv costumam basear essas análises em opiniões de especialistas, jogando para eles o diferencial.

    Bom, abraços a todos!

  10. […] This post was mentioned on Twitter by flashbrasil and Nelson Biagio Jr. flashbrasil said: [Blogosfera] Techbits: O valor da informação: Faz uns três anos que parei de ler diariamente jornal,.. http://bit.ly/WRTfc […]

  11. 11. Semtex disse em 12 out 2009 - 23:24

    O maior problema está conteúdo, não concorrência com a internet. É claro que ela tem um papel importante, até há pouco tempo assinava The Wall Street Journal e a revista National Review impressos. Com certeza, quando tiver com mais dinheiro, vou continuar assinando. Apesar de suas versões online serem mais baratas, eu gosto de sentar no sofá e manusear fisicamente a notícia. Não vou me aprofundar aqui, todos os jornais de grande circulação no Brasil parecem mais panfletos ideológicos (Folha, Estadão, Globo). Notícias internacionais são copiadas do ultra-esquerdista New York Times, raramente do Wall Street Journal e jamais alguma opinião vem da National Review (quem já ouviu falar aí no Brasil?). A diferença é que os dois últimos são de cunho conservador, sendo que o WSJ é o único jornal de grande circulação aqui nos EUA que não teve quedas nas vendas. O NY Times teve que arrendar parte do seu edifício; o Estadão tem metade da circulação diária de 1992 (ano que fiz uma visita). Enquanto isso, prefiro ler opiniões de blogueiros muitíssimos mais bem qualificados do que esta molecada despreparada e ideologicamente disforme que escreve nos jornais hoje em dia…

  12. […] fiz um post sobre “O valor da informação“. Nele falo que a notícia, o registro simples e puro de um fato, está virando commodity. Mas […]

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